Nadal é 10
Por José Nilton Dalcim
30 de abril de 2017 às 13:40

O tênis profissional jamais viu um domínio tão avassalador de um tenista sobre uma superfície como o de Rafael Nadal em cima do saibro. Isso já era patente há muito tempo, porém a queda técnica e física do canhoto espanhol nas últimas duas temporadas e principalmente a ascensão meteórica de Novak Djokovic sobre o piso após 2011 haviam criado certo esquecimento sobre isso.

Embalado por um começo de ano na quadra dura animador, Nadal voltou a ser o homem imbatível na terra após campanhas impecáveis em Monte Carlo e Barcelona, que culminou neste domingo com uma vitória indiscutível sobre um maiores dos candidatos a sua sucessão, o austríaco Dominic Thiem.

Barcelona assistiu ao melhor Nadal que se possa imaginar sobre o saibro. Preciso, aplicado com afinco na parte tática, incrivelmente veloz, magnífico nos contra-ataques. Aguentou a pancadaria que Thiem impõe com seus golpes pesadíssimos e achou sempre a melhor solução. Show.

Fico a imaginar se alguém terá a capacidade de suportar esse Rafa em melhor de cinco sets. Talvez só mesmo Djokovic. Mas não o de hoje, aquele de 2011 ou 2015. O sérvio terá Madri e Roma para tentar reagir. Caso contrário, o ’10’ de Monte Carlo e Barcelona terá uma enorme probabilidade de se repetir em Roland Garros. Será que terão de mudar o nome da Philippe Chatrier também?

Outra boa notícia do fim de semana foi o primeiro título de Lucas Pouille sobre o saibro. Depois de ter chegado na semi de Monte Carlo, faturou Budapeste. Curioso é que ele salvou dois match-points na estreia contra Jiri Vesely. Firma-se no 14º lugar do ranking e isso pode ajudar muito se conseguir se manter na faixa dos 16 cabeças em Roland Garros. Aliás, não teria sido mais lógico Thomaz Bellucci e Thiago Monteiro terem ido a Budapeste ao invés de Barcelona?

Emocionante por fim a conquista da convidada Laura Siegemund em casa, num jogo até mais interessante que a final de Barcelona. Claro que nem ela, nem a francesa Kiki Mladenovic podem ser consideradas grandes feras no saibro, mas proporcionaram um jogo divertido na terra artificial e coberta de Stuttgart. O título valeu o 30º lugar do ranking e especialmente um Porsche Carrera 911 conversível. Uau.

Mladenovic havia derrotado no sábado Maria Sharapova, num jogo que esteve a maior parte do tempo nas mãos da russa. A ex-número 1 abriu 16 chances de quebra e só confirmou três, deixando escapar cinco nos games finais. De qualquer forma, o retorno de Sharapova após 15 meses sem qualquer atividade competitiva surpreendeu. Ela reaparecerá como 262º do ranking. Madri e Roma serão os próximos capítulos, enquanto aguarda a definição do convite em Roland Garros.

Vitória valiosa
Por José Nilton Dalcim
28 de abril de 2017 às 23:07

Andy Murray fez muito mais do que evitar uma segunda amarga e desmotivadora derrota consecutiva para Albert Ramos nesta sexta-feira. Ao atingir a semifinal de Barcelona, ele garantiu o posto de número 1 até pisar novamente em Queen’s, quaisquer que sejam seus resultados e dos concorrentes diretos no saibro europeu a partir agora.

E é muito, muito provável que seja o cabeça 1 em Wimbledon. Na análise fria dos números, o escocês precisará a partir de agora apenas defender seu título no All England Club para se manter na ponta do ranking até a volta ao piso sintético norte-americano, em agosto.

Neste sábado, quando entrar em quadra para enfrentar Dominic Thiem, Murray estará com 11.780 pontos no ranking. E mesmo que não vença um único outro jogo até Queen’s, ainda contabilizará 8.980. Esse total não pode ser atingido por Novak Djokovic, que tem 8.085 no momento e apenas 400 a acrescentar, já que defende os títulos de Madri e Paris e o vice em Roma. Incrivelmente, Stan Wawrinka também não conseguirá chegar a tanto, nem mesmo se vencer todos os próximos torneios, o que lhe daria um acréscimo de 3.180 pontos e o total de 8.875.

Em momento de ascensão no retorno ao saibro europeu, Rafa Nadal ainda tem chance de somar 3.690 pontos se ganhar mais dois jogos em Barcelona e depois faturar seguidamente Madri, Roma e Paris. Porém, sairia da excepcional escalada ainda atrás de Murray no ranking, com 8.105 pontos.

Tal matemática e a vingança suada em cima de Ramos podem, e devem, motivar Murray. Ele felizmente mudou a detestável postura de Monte Carlo, na semana passada, e foi muito mais agressivo no duelo desta sexta-feira, concluindo vários pontos na rede.

No entanto, é fácil perceber a falta de confiança no forehand, algo que terá de consertar até mesmo para se dar bem na grama. Em muitos lances com bola morta no meio da quadra, não conseguiu mais do que empurrar para o outro lado com o forehand. Contra o jogo bem mais veloz de Thiem, precisará tomar uma decisão. Se passar e encarar Nadal, como parece o lógico, vai ser um deus nos acuda.

Em Stuttgart, Maria Sharapova continua dando as cartas. Fez três jogos incrivelmente bem disputados, em que usou suas armas principais: o saque, aliás renovado e ainda mais afiado, e as devoluções ofensivas.

Claro que o fato de o torneio ser disputado em quadra fechada potencializa esses dois predicados. Daí eu levar até um susto quando vejo gente já colocando Sharapova como favorita a Roland Garros. Ainda há muita coisa a acontecer.

Ela voltou
Por José Nilton Dalcim
26 de abril de 2017 às 18:52

Contra tudo e (quase) contra todos, Maria Sharapova voltou às quadras e surpreendeu. Diante de um adversária experiente e em ritmo perfeito de competição, a russa mostrou pouco a pouco um tênis vigoroso e agressivo, como se jamais tivesse ficado 15 meses longe do circuito. Vibrou muito, pareceu conter lágrimas. Muito aplaudida em Stuttgart.

Há duas coisas inegavelmente valiosas no retorno da musa. A primeira é que coloca atenção sobre o circuito feminino, que está claramente com carência de estrelas nos últimos meses. Com tendência a piorar, frente à gravidez de Serena. Em segundo, porque entra como nome forte já para os torneios de saibro e, na ausência da rainha da grama, pode muito bem sonhar outra vez até com Wimbledon.

Não vamos esquecer que a temporada 2017 está fortemente marcada por dois retornos inesperados e gloriosos: Roger Federer e Rafael Nadal. Ainda que os motivos de afastamento da russa sejam distintos, ou seja, não sofreu uma limitação séria por contusão, a busca por bons resultados, finais e títulos não será diferente da façanha que os dois rapazes obtiveram no Australian Open.

Por fim, ainda me causa estranheza ver tenistas batendo reto a ter sucesso sobre o saibro, como têm feito Sharapova e Serena nos últimos tempos. Isso ratifica o quão diferenciadas elas são e o quanto o piso de terra deixou de ter especialistas ao longo dos tempos.

A nota triste cabe ao tênis brasileiro e sua incrível derrocada logo no começo desta semana nas mais variadas modalidades e torneios, ainda que todos sobre o saibro. A queda de Thiago Monteiro foi amarga e preocupante pela forma com que aconteceu. Thomaz Bellucci se perdeu totalmente depois de ter uma quebra de vantagem no começo da partida. Bia Haddad e Teliana Pereira falharam no quali, os duplistas continuam sem achar ritmo.

A salvação da lavoura coube ao veterano Rogério Silva, que fez ótima estreia em Barcelona e teve azar de encarar logo Rafa Nadal na segunda rodada. O sorteio não poderia ter sido mais cruel. Pegar o embaladíssimo campeão de Monte Carlo diante de sua torcida e em dia de festa, pela inauguração oficial da quadra que foi batizada pelo maior nome do esporte espanhol da atualidade.

Rogerinho não fez feio, ressalte-se. Claro que lhe faltam golpes poderosos para definir pontos, sem os quais é muito difícil complicar Rafa no saibro. Porém, sua vontade de ganhar torna o jogo sempre divertido de se ver.