O fator Agassi
Por José Nilton Dalcim
24 de maio de 2017 às 19:24

Novak Djokovic está de novo no centro das atenções. Evoluiu em Roma com boas exibições e anunciou um treinador estelar mas inexperiente às vésperas de defender seu título em Roland Garros. Qual a chance de a opção por Andre Agassi dar certo? Avaliemos prós e contras.

Antes de qualquer coisa, precisamos nos fixar nas próprias palavras de Djokovic quando anunciou o acerto com Agassi. Ele deixou claro que o encontro em Paris será muito mais para melhorar o conhecimento entre eles e que Agassi sequer planeja ficar o tempo inteiro em Roland Garros.

Outro ponto essencial é quando Nole diz que não existe ainda um acordo de longa duração, o que combina com informações que foram veiculadas anteriormente dizendo que o norte-americano só iria acompanhar o sérvio em um pequeno número de semanas, talvez limitado aos principais torneios. Certamente a presença de Agassi em toda a temporada de quadra dura pós-Wimbledon e até o US Open é mais do que garantida.

Djokovic diz que a opção pelo dono de oito Grand Slam tem muito a ver com seu respeito pelo norte-americano como tenista e como pessoa, o que inclui o valor que Agassi dá à família.  “Ele poderá contribuir tanto na quadra como na minha vida”, afirma. Aí automaticamente vem outra dúvida: se o guru Pepe Imaz está no time justamente para cuidar do espírito, não há um certo risco de conflito com o novo treinador? Nunca é demais lembrar que Agassi teve sérios conflitos familiares e excluiu o pai de seu convívio, enquanto Djokovic preserva a família acima de tudo.

Ao mesmo tempo, a trajetória de Agassi no circuito é um ponto favorável, uma autêntica inspiração. O norte-americano deixou os problemas pessoais interferirem gravemente em sua carreira, desabou para perto do 150 posto e era dado como acabado quando remontou de forma espetacular e atingiu novamente o número 1 do mundo aos 33 anos, um recorde que permanece até hoje.

Irá pesar o fato de Agassi jamais ter treinado qualquer tenista? Bom, Boris Becker também não tinha e fez um belo trabalho com Djokovic, não apenas desenvolvendo elementos cruciais, como o saque e o jogo de rede, mas também dando aquele implemento emocional que levou Djoko ao status de imbatível, bem ao estilo Becker. Todo mundo sabe que Agassi também possuía uma personalidade forte e foi um ganhador nas quadras.

Exceção feita a algumas exibições e entrega de troféus, Agassi tem estado fora do circuito do tênis desde sua retirada, em 2006. São dez anos. Mas é bem possível que tenha acompanhado partidas e torneios. Ao menos nunca se refutou em dar entrevistas, comparar jogadores ou eleger seus favoritos. Entre os quais, aliás, sempre destacou Djokovic.

Tecnica e taticamente, todos sabemos que há uma certa semelhança entre eles. Gostam de jogar plantados perto da linha, tentando pegar a bola sempre na subida. Buscam assim ditar o ritmo e trocar de direção antes do adversário. A devolução sempre foi o ponto forte de ambos, mas o pupilo saca, se mexe, dá slice e voleia melhor do que o mestre fez.

Então parece que a missão primordial de Agassi será fazer Djokovic acreditar novamente no seu potencial. Se fizer isso, o salário merecerá ser dobrado.

Sangue azul
Por José Nilton Dalcim
21 de maio de 2017 às 19:00

Alexander Zverev provou de uma vez por todas que tem sangue nobre. Em sua primeira final de Masters e logo diante de Novak Djokovic, que já havia vencido o torneio quatro vezes, o garoto de 20 anos não se intimidou. Muito pelo contrário. Encarou o backhand de Nole sem medo de ser feliz e foi superior ao número 2 do ranking o tempo inteiro. Sacou melhor, se manteve mais agressivo, compensou o ataque ao forehand com bolas profundas e literalmente tirou o adversário do sério.

Até mesmo quando o público ficou claramente do lado de Nole, louco para ver mais tênis, Zverev pareceu frio e calculista. Uma exibição tão segura que não é mais possível deixá-lo de fora da lista de candidatos ao título de Roland Garros, ainda que curiosamente tenha dito no começo da semana que não gosta tanto assim do saibro. Djokovic foi o oitavo top 10 que ele derrotou em 20 tentativas, sendo dois em Roma, três na terra e quatro em 2017.

Mais jovem tenista a ganhar um Masters em exatos 10 anos e primeiro alemão a fazer isso desde 2001, Zverev pegou um atalho e chega ao prestigiado top 10 pelo menos seis meses antes do que se esperava. E olha que a quadra dura é a sua predileta e ele já fez final na grama de Halle no ano passado, ao tirar nada menos que Roger Federer. Este já foi seu terceiro título em 2017, o que coloca o garoto no quarto lugar da temporada, 315 pontos atrás de Dominic Thiem.

A atuação impecável de Zverev foi um amargo presente de aniversário para Djokovic, que vira ‘trintão’ nesta segunda-feira. Para minimizar as notícias negativas do domingo, ele aproveitou para confirmar que Andre Agassi será seu novo treinador. O anúncio estava previsto para a quarta-feira, mas foi estrategicamente antecipado. Dono de oito Grand Slam, incluindo Roland Garros, e o mais velho tenista a reassumir o número 1 do mundo, Agassi nunca treinou qualquer tenista. Parece muito mais um apoio emocional – e vimos Nole hoje falar palavrão e se aborrecer com o vento, a quadra, o adversário e o boleiro – do que técnico neste momento. Se vai funcionar, teremos de esperar.

E não foi só Zverev quem deu ar de renovação ao circuito. A ucraniana Elina Svitolina aproveitou suas chances, conquistou o maior troféu da carreira e chega ao sexto lugar do ranking. Aliás, aos 22 anos e seis meses, é a mais jovem top 10 do momento. A menina faz tudo direitinho e tem a especial qualidade de jogar de forma agressiva, usando bem o saque e as bolas de base. Roland Garros, claro, parece também algo distante. Mas não impossível.

Ranking: briga pelo 2
Quem saiu com considerável lucro após Roma foi, acreditem, Andy Murray. Mesmo que ele sequer passe da estreia em Roland Garros, o número 1 está em suas mãos. Tudo que precisará é manter os títulos de Queen’s e Wimbledon, independente das campanhas de Nole e Nadal em Paris e depois na grama.

A briga no entanto ficará bem interessante entre Djokovic e Nadal pela vice-liderança já no Aberto francês. Descontadas as campanhas do ano passado, a vantagem de Djokovic será de apenas 160 pontos quando o torneio começar. Ou seja, a partir das oitavas, qualquer jogo a mais que Nadal vença em relação ao sérvio lhe dará o segundo posto.

Wawrinka até tem chance de chegar ao número 2, mas teria de ser pelo menos finalista e ainda contar que Djokovic e Nadal parem nas quartas.

Entre os garotos, a situação mais confortável é de Zverev, que defende apenas 90 pontos. Thiem foi semifinalista e precisará repetir 720. Ainda assim, a distância entre eles começará em 365, o que é mais do que quartas de final.

Cabeças e sorteio
Ao que tudo indica, a sorte na formação da chave será essencial neste Roland Garros, porque afinal Djokovic e Nadal podem cair do mesmo lado e ainda um deles cruzar com Thiem, Zverev ou David Goffin nas quartas. E alguém pode se dar muito bem, como Wawrinka, e ficar no setor de Murray, Milos Raonic ou Marin Cilic, Grigor Dimitrov ou Jack Sock.

No feminino, Angeliquer Kerber e Karolina Pliskova encabeçam, mas não convencem. Halep será a cabeça 3 e Garbine Muguruza, cada dia com um problema diferente, tem a pressão de defender o título como 4. Seria um alívio fugir de Elina Svitolina, cabeça 5, e Sveta Kuznetsova, a 8. Ao que tudo indica, a campeã deve sair desse grupo. Qualquer outra coisa será uma tremenda surpresa.

O sorteio está marcado para sexta-feira cedo, em Paris.

Ele voltou?
Por José Nilton Dalcim
20 de maio de 2017 às 16:56

Três adversários de gabarito, três vitórias cheias de golpes perfeitos, concentração, alegria e vibração. Novak Djokovic voltou a seu melhor tênis ainda em tempo hábil para brigar pelo bicampeonato em Roland Garros?

Acho que o título neste domingo em Roma ainda fará parte importante dessa resposta, embora seja inegável que o Nole que temos visto no Fóro Itálico é completamente diferente de Monte Carlo ou Madri. No entanto, ganhar seu primeiro título importante desde agosto em cima de Alexander Zverev, outro grande nome da temporada e da nova geração, dará o retoque final e essencial.

Djokovic voltou a usar sua magistral devolução para destruir taticamente Juan Martin del Potro e Dominic Thiem. Em pleno saibro, esperou os segundos saques um passo dentro da quadra e tomou rapidamente conta dos pontos. Se precisou entrar numa troca mais longa, usou bolas profundas nas cruzadas e paralelas precisas. Sacou firme, confiante. Sufocou o argentino e seu débil backhand, esmagou Thiem ao impor a mais categórica vitória sobre o austríaco em cinco confrontos.

Todos esses predicados serão importantes contra Zverev, um adversário a quem nunca enfrentou. O alemão terá contra si o compreensível nervosismo de fazer sua primeira final de Masters diante de um oponente que tenta recuperar o recorde de troféus dessa categoria e atingir o 31º.

Zverev tem um arsenal respeitável, desde o saque até as bolas de base. O forehand é um pouco mais vulnerável, assim como a movimentação de seu 1,98m. O garoto no entanto é ousado. Dá curta, vai à rede, arrisca winners. Fez uma partida difícil contra John Isner neste sábado, tirando três serviços do grandalhão. Ou seja, teve paciência para esperar suas chances.

Se conseguir um surpreendente título em Roma, Zverev concretizará muito antes do esperado o primeiro degrau significativo dos grandes, que é atingir o top 10. E já embolsará um troféu de Masters, igualando-se imediatamente a tenistas muito mais experientes que se limitaram a uma isolada conquista desse porte em toda a carreira, como Wawrinka, Ferrer, Berdych, Haas, Soderling e Norman.

O domingo em Roma será especial, de um jeito ou de outro.